Transporte rodoviário de cargas termina o semestre em recuperação

Fonte: Jornal do Comércio



O transporte rodoviário de cargas (TRC) fechou o semestre com 22% de retração após registrar uma queda de 45,2% no mês de abril. Os dados foram divulgados no final de agosto pela NTC&Logística (Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística), que vem monitorando e divulgando, semanalmente, os impactos da crise no setor desde março. Dentre os segmentos do setor menos afetados na pandemia estão os da indústria farmacêutica (-17%), química e agroquímica (-19,1), do comércio de lojas e supermercados (-22,9) e o do agronegócio (-23,8). O mais prejudicado foi o dos shoppings centers (-58,2%).


De acordo com o presidente da Federação das Empresas de Transporte de Cargas do Rio Grande do Sul (Fetransul), Afrânio Kieling, a diminuição da queda no setor se deve à retomada das atividades econômicas em São Paulo, considerado a locomotiva do Brasil. "O Estado é o que mais consome e mais produz. Quando começou a abrir, logo (a situação) começou a melhorar", afirma. "Conforme outros estados forem permitindo a abertura gradual de setores como comércio, indústria e serviços, a tendência é seguir melhorando". Desde o pico, em abril, o setor está há quinze semanas em recuperação e, de março a julho, teve uma queda média no volume de cargas transportadas de 38,5% no Brasil e de 31,5% no Rio Grande do Sul.


Para Kieling, um fator importante para a sobrevivência do setor durante a pandemia foi, também, o agronegócio. O segmento foi um dos menos impactados durante a crise, fazendo a diferença para as transportadoras. Segundo ele, embora o Estado tenha registrado uma diminuição da safra, o bom desempenho de outros estados garantiu a movimentação dos transportes.

Presidente da TW Transportes, Alexandre Schmitz também ressalta a relevância do agronegócio em meio ao contexto atual. Trabalhando junto a empresas vinculadas ao cenário agrícola, ele percebe que o segmento não sofreu tanto com a pandemia quanto os grandes centros urbanos, garantindo uma estabilidade nas atividades da companhia.


Em março, quando a pandemia chegou ao País, a empresa teve um decréscimo de 30% no faturamento. Em razão disso, passou a implementar um maior controle de custo, uma redução de pessoal e revisão do planejamento para os meses seguinte. No entanto, o que se percebeu a seguir foi que a companhia manteve uma estabilidade. Após a queda inicial, a retração ficou em torno de 10% e 5%. Schmitz explica que a TW já vinha fazendo um trabalho de longa data. "Nós estamos desde 2017 organizando a empresa e tornando ela mais sólida na questão do fluxo de caixa e controle de custo".


Durante o período envolvido na pesquisa (da metade de março ao final de julho), a média de empresas do ramo afetadas negativamente pela pandemia foi de 85%, com um pico de 94% na penúltima semana de maio. O semestre, no entanto, terminou com um percentual de 78% das companhias prejudicadas.

As grandes empresas que abastecem os shoppings centers e os comércios de rua foram as que mais sentiram. De acordo com o presidente da Fetransul, enquanto os estabelecimentos não estavam recebendo os produtos, as transportadoras ficaram com os seus depósitos lotados. Somente com a reabertura de algumas locações é que o transporte das mercadorias foi possível. "Isso também foi uma dificuldade muito grande que as empresas encontraram".


Para além das razões vistas como favoráveis à recuperação do setor, Kieling acredita que o transporte de cargas rodoviárias do País tem apresentado maturidade para lidar com os cenários adversos e se adaptar aos novos meios. O e-commerce, por exemplo, foi uma das alternativas encontradas para ajudar o setor a se reinventar. "As empresas estão muito bem estruturadas. Frente a grandes desafios, têm conseguido se manter, sobretudo com o uso de novas plataformas de tecnologia", diz.

Junto à recuperação do volume de cargas transportadas, o setor voltou a registrar saldo positivo na comparação entre demissões e admissões em junho, com 2.819 vagas criadas no País. Foram 29.477 admissões e 26.658 desligamentos. Com isso, o segmento contribuiu para atenuar a perda de empregos formais registrada pelo setor de transporte como um todo no mês. Os dados estão no Boletim Economia em Foco, divulgado pela CNT (Confederação Nacional do Transporte).

A partir dos números do Novo Caged (Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), do Ministério da Economia, é possível observar que, desde o início da crise (entre março e junho), o setor de transportes em geral já acumula perda de 61.429 vagas de emprego. Em junho, foram demitidos 40.438 empregados e admitidos 34.139, o que gerou uma perda líquida de 6.299 vagas. No mesmo período, o transporte rodoviário de cargas também obteve saldo negativo, com a perda de 5.153 vagas no Brasil. No Estado do Rio Grande do Sul, essa queda foi de 1.891. O saldo positivo apresentado no TRC no mês de junho, no entanto, está relacionado à recuperação apresentada nos últimos meses e, também, ao afastamento de trabalhadores nas empresas. Devido à adesão à MP 936, do Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda, que permite suspensões de contratos e reduções de até 70% dos salários e jornadas, as transportadoras têm reduzido o número de funcionários, o que tem gerado dificuldades no planejamento. É o caso da TW Transportes, por exemplo.

De acordo com o presidente da TW Transportes, Alexandre Schmitz , muitos dos seus funcionários apresentaram sintomas e tiveram de ser afastados. Isso ocasionou uma sucessão de faltas, de forma que a alternativa foi buscar novos profissionais no mercado. "Isto acaba complicando o processo para continuarmos mantendo uma certa regularidade com os clientes", conta. Ele reconhece, ainda, que a diminuição da queda do setor está gerando uma maior demanda por mão de obra.

Atualmente, a TW Transportes possui 40 vagas abertas para as vagas de auxiliar de logística, conferente de carga e motorista. Antes da pandemia, a empresa estava com cerca de mil funcionários diretos. Hoje, são 804 ativos na companhia.

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