Revista Eu Amo Caminhão: Rodovias e estradas federais têm 653 pontos de exploração sexual infantil


O projeto Mapear, uma parceria da Polícia Rodoviária Federal e a Childhood Brasil, identificou 1.142 pontos críticos de exploração sexual de crianças e adolescentes (ESCA) em rodovias brasileiras, sendo que desse total, cerca de 60%, o equivalente a 653, são considerados pontos de alto risco. De acordo com o relatório, no biênio 2019/2020 foram levantados 3.651 pontos vulneráveis. Apesar do aumento de 47% em relação ao total de pontos do biênio anterior (2.487), a PRF detectou uma redução do número de pontos críticos, uma tendência desde o início do mapeamento em 2009, quando se estabeleceu a qualificação dos pontos por níveis de criticidade.


Eva Dengler, gerente de Programas e Relações Empresariais da Childhood Brasil, explica que o objetivo principal é o de ser um instrumento de atuação eficaz no enfrentamento à exploração sexual de crianças e adolescentes. Ela destaca a parceria com a PRF como um grande ganho para o desenvolvimento da metodologia de identificação de pontos vulneráveis e inclusive um nível de criticidade desses pontos, permitindo, dessa forma, que a Polícia Rodoviária Federal atue de maneira eficaz e eficiente, possibilitando que encontrem com maior frequência uma criança, um adolescente nesses locais que têm características de serem críticos ou de alto risco.



“O projeto Mapear foi criado em 2009. De lá para cá, quase 5.000 crianças foram resgatadas nesses 12 anos. Então, é um resultado excelente do trabalho feito pela Polícia Rodoviária Federal e que só foi possível em função dessa metodologia de identificação de onde provavelmente o crime pode estar acontecendo”, frisa.


Para a gerente de Programas e Relações Empresariais da Childhood Brasil, o mapeamento da Polícia Rodoviária Federal traz várias questões importantes, entre elas o aumento do número de pontos vulneráveis, o que, segundo ela, não significa, em nenhum momento, o crescimento de situações de exploração sexual de crianças e adolescentes. Na verdade, Eva Dengler esclarece, é a constatação do trabalho, cada vez melhor, realizado pela PRF, no sentido de mapear tudo o que existe à beira da rodovia:


“A partir desse mapeamento e do próprio sistema desenvolvido, classifica-se, através de uma metodologia, os pontos críticos como alto risco, médio risco, baixo risco. Assim a PRF tem um raio X, cada vez mais completo, dos locais críticos nas rodovias onde ela precisa agir”, argumenta.



Outro aspecto destacado por Eva Dengler no Mapear 2019/202 é referente à diminuição significativa dos pontos críticos nesses 12 anos, devido ao trabalho da Polícia Rodoviária Federal nesses locais. Entretanto, como esses pontos são migratórios, na medida em que há muita atuação de repressão da polícia percebe-se que há uma redução, mas, afirma, “isso não significa, ainda, que tivemos uma redução na situação da exploração sexual, porque ela pode ter migrado, por exemplo, para rodovias estaduais de menor fiscalização. Então, a atenção continua sendo muito importante”.


As regiões com maior número de pontos vulneráveis são Nordeste (1.079), Sul (896), Sudeste (710), Centro-Oeste (531) e Norte (435). De acordo com o estudo, os estados do Paraná, Minas Gerais, Bahia, Goiás e Rio Grande do Sul, respectivamente, apresentam a maior incidência. A BR-116 – a maior rodovia federal do Brasil - segue com o maior número de pontos críticos, mas apresentou diminuição de 30% em relação ao biênio passado.


Na avaliação de Dengler, a diminuição de casos na rodovia não tem relação com a pandemia de Covid-19, já que o levantamento físico dos pontos foi feito antes, em 2019, e os dados foram lançados em 2020. Para ela, é reflexo das operações da PRF, que “tem trabalhado intensamente na repressão desses pontos críticos de alto risco”.


Sobre o Programa Na Mão Certa, Eva Dengler explica ser uma iniciativa da Childhood Brasil, que nasceu em 2006, a partir da pesquisa que realizaram sobre o perfil do caminhoneiro no Brasil. No estudo se buscava entender melhor a vida desse profissional da estrada e, principalmente, o que ele sabia sobre a situação da exploração sexual, já que 15 anos atrás não havia nenhum tipo de dado público a respeito dessa questão. O estudo, continua, confirmou a ocorrência da exploração sexual de crianças e adolescentes nas rodovias brasileiras, a forma como essa exploração é ofertada aos caminhoneiros, dentro do contexto da prostituição adulta e como esse crime, quase camuflado, é invisível para a sociedade.



Dengler explica que o grande objetivo do programa foi, desde o primeiro momento, o de transformar o caminhoneiro num grande agente de proteção nas rodovias brasileiras, levando informações sobre a realidade da violência sexual contra crianças e adolescentes, o porquê a exploração sexual não pode ser aceita, nem naturalizada, trazendo, assim, um novo olhar para esses profissionais e fundamentalmente para toda a sociedade brasileira.


De acordo com a gerente, nenhuma criança ou adolescente está num ponto de parada ou à beira de uma rodovia por escolha ou até por consentimento. Certamente, garante, essa criança pode ter sido traficada, sequestrada, e está sempre acompanhada de um adulto, que muitas vezes não aparece, mas pode ser tanto um cafetão, um líder de uma rede de exploração, de roubo de carga, de tráfico de drogas, de armas:


“Usam as crianças também nesse contexto e, além disso, oferecem para exploração sexual para potenciais clientes que possam encontrar na rodovia. Também têm muitos casos em que a gente vai encontrar a família da criança por trás. Então, o papel do programa tem sido esse: abrir o olhar do setor privado para essa questão, usando como coração central o enfrentamento nas rodovias brasileiras, mas hoje já ampliando essa visão para todos os demais setores por meio de um trabalho que nós chamamos de soluções e ferramentas dentro do programa”, finaliza.


Fonte: Eu Amo Caminhão

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