Revista Eu Amo Caminhão: O Impacto psicológico dos acidentes de trânsito nos caminhoneiros



O Brasil é um país de dimensões continentais que tem o transporte rodoviário como principal sistema logístico para movimentar cargas e passageiros. Pela malha de 1.751.868 quilômetros de estradas e rodovias brasileiras, a quarta maior do mundo, passam cerca de 60% de toda a carga movimentada no território. Segundo o Painel CNT de Consultas Dinâmicas de Acidentes Rodoviários, no ano passado, foram registrados 63.447 acidentes em estradas federais. De acordo com o levantamento da Confederação Nacional do Transporte - CNT, o grau de letalidade desses acidentes foi de 5.287 óbitos. Ainda segundo a CNT, estima-se que, somadas, as ocorrências envolvem prejuízo de R$ 10,22 bilhões, sendo R$ 5,84 bilhões relativos às ocorrências com vítimas que sobreviveram; R$ 4 bilhões aos sinistros com mortes, e pouco mais de R$ 365 milhões com aqueles sem vítimas.


O tipo de acidente mais comum nas vias federais é a colisão, que responde por 59,4% do total de ocorrências. Em seguida, estão as saídas da pista (15,7%); capotamento e tombamentos (12,2%); atropelamentos (7%), e quedas de ocupante (5,3%). As colisões também respondem por 61,8% das situações com óbitos, enquanto os atropelamentos provocam 17,4% dos casos, seguidos pelas saídas de pista (12,8%). Análise feita pelo Observatório Nacional de Segurança Viária - ONSV aponta que as condições precárias de muitas vias e rodovias brasileiras, o excesso de trabalho, de velocidade, a falta de manutenção e/ou deficiência dos veículos são fatores geradores de acidentes que contribuem para engrossar a estatística.


Com objetivo de alertar a sociedade para o alto índice de mortes e feridos no trânsito em todo o mundo, em 11 de maio de 2011, a ONU decretou a Década de Ação para Segurança no Trânsito. Com isso, o mês de maio se tornou referência mundial para balanço das ações que o mundo inteiro realiza. A intenção é colocar em pauta o tema segurança viária e mobilizar toda a sociedade, envolvendo os mais diversos segmentos. O Conselho Federal de Psicologia - CFP, através de sua Comissão de Psicologia no Trânsito, está presente e apoia a iniciativa. Para conversar sobre este tema tão importante para o setor de transporte rodoviário de cargas, trazemos uma entrevista exclusiva com a psicóloga Lívia Bittencourt Camello, aluna-candidata a membro efetivo do Círculo Brasileiro de Psicanálise - Seção Rio de Janeiro - CBPRJ.


Quais os impactos psicológicos que acidentes nas estradas provocam nos profissionais do transporte rodoviário de cargas?

Os altos índices de acidentes tendem a aumentar o estresse relacionado ao trabalho em profissionais do transporte rodoviário de cargas, já que existe uma identificação natural com as vítimas ou até mesmo uma relação pessoal. Além disso, a percepção de falta de segurança no exercício da função pode provocar inseguranças, fobias e angústias relacionadas ao trabalho desempenhado, causando comportamentos arriscados.


O que esses profissionais podem fazer para evitar essa triste estatística?

Como em todo ofício que exige atenção plena devido aos riscos de acidentes, os profissionais devem dobrar a atenção aos tipos de autocuidado. Monitorar e cuidar do sono, alimentação e saúde em geral é essencial, mas também é necessário estar atento às emoções, relações e satisfação pessoal, tanto no período de trabalho como fora dele.


Então, descansar e se alimentar bem são dicas para se evitar acidentes?

Para atingir a atenção necessária para conduzir um veículo em segurança é imprescindível estar com alimentação e sono em dia, além dos demais cuidados básicos com a saúde. A fadiga pode gerar comportamentos impulsivos, abrindo espaços para a direção perigosa, agressividade, irresponsabilidade, intolerância à frustração, impulsividade, entre outros comportamentos que representam riscos altos na condução de um veículo.

É importante destacarmos que a esfera profissional é apenas uma parte da vida do indivíduo que envolve muitas outras questões dinâmicas que estão em constante mudança e trazem desafios e novos estímulos para serem elaborados. Por isso, a saúde mental deve estar sempre em observação assim como os demais aspectos do autocuidado que envolvem as relações pessoais e a forma de lidar com as mudanças e exigências da vida.



Quais tipos de tratamentos psicológicos os caminhoneiros devem fazer para evitar acidentes nas estradas?

A terapia é indicada para quem está lidando com algum tipo de angústia, para quem se sente em desajuste com suas escolhas e rotina, mas também para quem busca autoconhecimento e elaboração da própria história.

Estar em contato consigo pode ajudar a tomar decisões mais conscientes e consequentemente estabelecer uma relação mais segura e satisfatória com todas as áreas da vida, incluindo o trabalho.

Quando o profissional estabelece seus objetivos, limites e se conhece mais profundamente, ele automaticamente entende uma forma saudável de atuação, se poupando de riscos desnecessários e desempenhando sua função com mais facilidade e satisfação.


Maio é o mês destinado a alertar a sociedade para o alto índice de mortes e feridos no trânsito em todo o mundo. O Conselho Federal de Psicologia - CFP, por meio de sua Comissão de Psicologia no Trânsito, apoia a iniciativa. Conforme o catálogo brasileiro de ocupações, dentre outras responsabilidades, o psicólogo do trânsito participa de equipes multiprofissionais voltadas à prevenção de acidentes de trânsito; desenvolve, na esfera de sua competência, estudos e projetos de educação de trânsito; contribui nos estudos e pesquisas relacionados ao comportamento individual e coletivo na situação de trânsito, especialmente nos complexos urbanos. A senhora poderia nos explicar melhor como se dá essa participação no dia a dia do caminhoneiro?

O Maio Amarelo é uma data que tem como proposta chamar a atenção da sociedade para o alto índice de mortes e feridos no trânsito em todo o mundo.

O objetivo do movimento é uma ação coordenada entre o poder público e a sociedade civil com intenção de colocar em pauta o tema da segurança viária e mobilizar os mais diversos segmentos da sociedade para discutir o tema, viabilizar projetos e compartilhar o conhecimento, comportando toda a amplitude que a questão do trânsito exige em diferentes setores.

Quando todas essas instâncias se reúnem em torno de um tema, são geradas pesquisas, dados e padrões que podem ajudar a compreender melhor as circunstâncias causadoras das ocorrências. Tendo em mãos essas informações, entidades responsáveis conseguem atuar de forma assertiva junto aos órgãos públicos, empresas e profissionais fazendo com que tenham maior qualidade no desempenho da sua função.


A Psicologia do Trânsito estabelece diálogos com a medicina do trabalho, a engenharia de estradas e de veículos, o direito e a criminologia. Na prática, como ocorre essa variedade de ações multiprofissionais e como são desenvolvidas e articuladas na sociedade?

Quando falamos em psicologia do trânsito para profissionais rodoviários de cargas, estamos identificando comportamentos que possibilitem o desempenho de uma função que interfere diretamente na atividade das estradas e cidades, logo na segurança de toda a sociedade.

Para a implementação de soluções de impacto, as discussões geralmente comportam diversas especializações e exigem a atenção e diálogo entre vários tipos de profissionais. Como exemplo podemos pensar na regulamentação de práticas adotadas pelas empresas que vão desde a implementação de jornadas de trabalho mais amenas a até uma estrutura que possibilite que esses profissionais estejam descansados, preparados e sensibilizados, não apenas com informações sobre as regras para direção, mas também sobre cuidados consigo e com o outro.


CONTATO:

Lívia Bittencourt Camello - 21 9 8782 7536


Fonte: Revista Eu Amo Caminhão


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